 |
| Clã Pioneiro Rodolfo Malempré |
Raízes do Escotismo
Afonso Rodrigues de Aquino
Este texto é parte integrante do livro
CLÃ PIONEIRO: o ponto de vista de um Mestre,
Aquino, A. R.,
Landmark Editora, São Paulo, 2005.
No final do século XIX e começo do XX, a Inglaterra estava envolvida direta e indiretamente com as guerras de libertação que redesenharam o mapa dos países do continente africano. Naquele tempo, havia necessidade de se manter uma constante vigília contra possíveis movimentos armados. Uma maneira de desestimular os possíveis adversários era mostrar a inutilidade de tentar derrotar um exército composto por homens invencíveis. Para isso era necessário cultuar heróis militares cujos feitos deveriam ser divulgados em todo o Império Britânico. A destacada atuação na guerra dos Boers transformou a figura de Baden-Powell em um ícone perfeito para estes propósitos. Talvez por isso conheçamos muito da educação militar de BP e pouco a influência de sua educação familiar, onde predominava o ambiente acadêmico.
Lendo um pouco sobre as diferentes concepções de universidades
[i]
[ii]
é possível tomar conhecimento da importância de Oxford na criação do movimento escoteiro.
A Universidade de Oxford, uma das mais antigas do mundo, foi criada no ano de 1096 com a finalidade de conservar e transmitir os conhecimentos, muito mais do que ao seu progresso. Esta concepção foi defendida por muitos dos seus tradicionais alunos, como John Henry Cardeal Newman, em The Idea of a University, de 1852. “A universidade é um lugar de ensino do saber universal. Isso implica que seu objetivo é (...) a difusão e a extensão do saber antes que seu avanço. Se uma universidade tivesse por objetivo a descoberta científica e filosófica, não vejo por que ela devesse ter estudantes”. “A constituição do espírito humano é tal que toda espécie de saber, se realmente digno desse nome, traz, em si, sua própria recompensa”. São estas algumas falas de Newman que resumem o modo de pensar o ensino em Oxford. Outro teólogo e educador oxfordiano, E. B. Pusey escreveu: “o problema e a tarefa especial de uma universidade não é avançar a ciência, nem fazer descobertas, nem formar novas escolas filosóficas, nem inventar novos modelos de análise, nem efetuar trabalhos de medicina, de direito ou mesmo de teologia, mas, muito mais, formar os espíritos, religiosamente, moralmente e intelectualmente...”. Em 1961, J. S. Fulton, Vice-Chanceler da Universidade de Sussex, evoca assim sua passagem por Balliol College, Oxford: “Quando eu aqui era estudante (e penso que acontecia o mesmo quando era tutor) as prioridades eram claras. Nossos mestres eram sábios notáveis(...): mas eram, em primeiro lugar, e antes de tudo professores. Devotavam-se a seus estudantes, durante toda a semana – e mesmo no fim da semana(...) Não creio que nos teriam influenciado tanto quanto o fizeram se não tivessem feito progredir suas disciplinas; mas creio que jamais duvidamos do fato de que sua responsabilidade principal era de se ocupar conosco”.
Voltando para Newman, ele afirma quanto aos resultados: “é bom ser um gentleman, ter uma inteligência cultivada, um gosto refinado, um espírito leal, justo e sereno, uma conduta nobre e cortês; tais são as qualidades que se acompanham de um vasto saber...”. Na mesma época, o economista John Stuart Mill se expressa assim: “Os homens são homens antes de serem advogados, médicos, comerciantes ou industriais; se vocês fizerem deles homens capazes e sensatos, eles se transformarão por si mesmos em advogados ou médicos capazes e sensatos. Ao sair da universidade, os recém-formados não devem levar consigo conhecimentos profissionais, mas, aquilo que é necessário para guiar o uso desses conhecimentos, para esclarecer os aspectos técnicos de seu trabalho à luz de uma cultura geral...”.
Outro destaque no trabalho de Newman é a importância que deve ser dada à educação das faculdades mentais e à educação da reflexão, em vez de privilegiar a memória e o enciclopedismo.
O papel dos tutores sempre foi fundamental para a concretização do modelo. Assim, qualquer que fosse a assiduidade ao curso – a opção entre estar ou não presente em classe era, em última instância, problema do aluno – o encontro semanal com o “tutor” era sagrado. A rotina de sessões criava, inevitavelmente, uma relação bem especial entre “tutor” e estudante. As habilidades eram estimuladas com a criação de associações com interesses específicos. Desta forma, existiam clubes de astronomia, matemática, química, anatomia, etc.
A biografia de nosso fundador, conforme encontrada no Guia Pioneiro publicado pela UEB
[iii]
, ajuda na construção dos argumentos.
“Em 22 de fevereiro de 1857, nascia em Londres Robert Stephenson Smith Baden-Powell – B.P. Filho de pastor e professor, ficou órfão de pai aos 3 anos, ficando sua mãe Henriette Smith com a árdua tarefa de criar 7 filhos, tendo o mais velho 13 anos e o mais novo apenas um mês. Além disso ela tinha o encargo de criar três filhos do casamento anterior, sendo que o mais velho tinha 22 anos de idade. Foi graças a esta extraordinária mulher que B.P. pode, nos seus primeiros anos, vivenciar uma sadia educação que certamente se refletiu positivamente no Movimento que mais tarde se concretizou. Suas primeiras lições foram ensinadas por sua mãe que se inspirou nos métodos adotados pelo finado marido na educação dos filhos mais velhos. O Professor Baden-Powell habitualmente ensinava seus filhos usando para tal, plantas, animais, a natureza enfim. Ao retornarem ao lar, franqueava-lhes sua biblioteca para que pesquisassem, e discutissem com ele as dúvidas porventura surgidas. Sempre, por mais ocupado que estivesse, estava aberto ao diálogo. Isso fez com que os jovens se motivassem de forma científica para a história natural”. Ainda de acordo com o Guia Pioneiro, “o pai de B.P. era o reverendo H.G. Baden-Powell, respeitado professor e cientista da Universidade de Oxford. Sua mãe era filha de outro cientista, Almirante William Smyth (1788-1865), aventureiro elizabeteano”.
O Avô de nosso fundador foi um grande astrônomo e renomado geógrafo, o mapa do Mediterrâneo que ele preparou foi oficialmente adotado até o ano de 1961. O Almirante Smyth, além de dirigir as Academias Inglesas de Astronomia e Geografia, foi vice-presidente da Academia de Ciências da Inglaterra, a famosa Royal Society, local onde se discutia seriamente as questões metodológicas, as quais em determinados momentos colocavam de um lado o indutivismo reducionista de Descartes, e de outro o deducionismo determinista de Bacon. O pai foi outro expoente inglês da ciência, reconhecido por Charles Darwin como o seu precursor no estudo e teorização da Seleção Natural, grande matemático, físico e geógrafo dotado de singular vocação para o ensino, ocupou, de 1827 a 1860, a Cátedra Savilian de Geometria, sendo considerado, pelos seus pares, um dos grandes professores que trabalharam na Universidade de Oxford. O Reverendo foi admirado pela honestidade intelectual, evidenciada no rigor científico com que tratou a questão do evolucionismo, que se contrapõe diretamente ao criacionismo preconizado, na época, pela religião anglicana. Além disso, foi reconhecido pelo espírito filantrópico, senso de coleguismo e por cultivar amizades saudáveis e desinteressadas
[iv]
.
Embora existam outras pessoas relevantes na linhagem direta de Baden-Powell, seu pai, sua mãe e seu avô materno podem ser considerados como aqueles que mais influenciaram a sua formação intelectual, o seu caráter e a sua personalidade. Para exemplificar a importância da universidade na vida de Baden-Powell, basta citar que no livro Caminho para o sucesso
[v]
, dedicado exclusivamente ao Ramo Pioneiro, é apresentado um conjunto de regras escritas pelo Reitor do New College de Oxford, Professor H. A. L. Fisher, para os alunos que entrarão de férias.
Muito do escotismo reside no que foi abstraído dessas relações familiares. O aprender fazendo, embutido nas aulas que o Reverendo ministrava inicialmente aos seus alunos e depois aos seus filhos. O sistema de patrulha que segue o modelo dos “tutores” adotado em Oxford. A constante busca da verdade estabelecida nos princípios da Universidade, além da postura honesta do pesquisador frente ao conhecimento encontrado nesta busca, estão na base do escotismo como caminho para o autodesenvolvimento e autoconsciência. As Leis Escoteiras têm no seu conjunto uma visão universal do homem, abordando as suas relações com ele mesmo, com seus semelhantes, com o meio ambiente natural e social e com Deus. O respeito mostrado com as diferentes formas culturais, na aceitação que todo escoteiro tem uma pátria e uma religião, está baseada na carta de Direito Universal dos Homens elaborada pelos iluministas franceses. Também deve ser lembrado o reconhecimento do evolucionismo darwiniano, que pôs a prova toda a honestidade intelectual do seu pai.
A leitura da REGRA 10 do Método Escoteiro aresentado no Capítulo 1 dos Princípios, Organização e Regras da União dos Escoteiros do Brasil
[vi]
, é suficiente para fazer as ligações necessárias para o entendimento das origens do escotismo.
REGRA 010 – MÉTODO ESCOTEIRO
O Método escoteiro, com aplicação eficazmente planejada e sistematicamente avaliada nos diversos níveis do Movimento, caracteriza-se pelo conjunto dos seguintes pontos:
a – Aceitação da Promessa e da Lei Escoteira:
Todos os membros assumem, voluntariamente, um compromisso de vivência da Promessa e da Lei Escoteira.
b – Aprender fazendo:
Educando pela ação, o Escotismo valoriza:
- o aprendizado pela prática;
- o treinamento para a autonomia, baseado na autoconfiança e iniciativa;
- os hábitos de observação, indução e dedução.
c – Vida em equipe, denominada nas Tropas “Sistema de Patrulhas”, incluindo:
- a descoberta e aceitação progressiva de responsabilidade;
- a disciplina assumida voluntariamente;
- a capacidade tanto de cooperar como para liderar.
d – Atividades progressivas, atraentes e variadas, compreendendo:
- jogos;
- habilidades e técnicas úteis, estimuladas por um sistema de distintivos;
- vida ao ar livre e em contato com a Natureza;
- interação com a Comunidade;
- mística e ambiente fraterno.
e – Desenvolvimento pessoal com orientação individual considerando:
- a realidade e o ponto de vista dos jovens;
- a confiança nas potencialidades de cada jovem;
- o exemplo pessoal do adulto;
- seções com número limitado de jovens e faixa etária própria.
Considerando que PROPÓSITO DO ESCOTISMO (REGRA 002) é contribuir para que os jovens assumam seu próprio desenvolvimento, acredito poder encerrar por aqui a minha argumentação deixando para você a continuação deste trabalho, lembrando que B.P. considerava que para ser um bom chefe escoteiro era suficiente para o adulto ser um homem livre e de bons costumes.
[i]
DREZE, J. e DEBELLE, J. Concepções da universidade. Edições Universidade do Ceará, Fortaleza, 1983.
[ii]
PIMENTA, S. G. e ANASTASIOU, L. G. C. Docência no ensino superior – vol 1. Cortez, São Paulo, 2002.
[iii]
GUIA PIONEIRO, União dos Escoteiros do Brasil, Brasília, 1998.
[v]
BADEN-POWELL. Caminho para o sucesso, 3a ed., p. 251, União dos Escoteiros do Brasil, Porto Alegre, 2000.
[vi]
PRINCÍPIOS, ORGANIZAÇÕES E REGRAS, União dos Escoteiros do Brasil, Curitiba, 1999.
|
 |